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Processo administrativo fiscal: etapas, prazos e as novas regras

06.10.2026
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22 min de leitura

Atualizado em outubro de 2026.

O processo administrativo fiscal é o caminho pelo qual o Fisco constitui e cobra um crédito tributário — e pelo qual o contribuinte pode contestá-lo sem ir ao Judiciário e sem oferecer garantia. Na esfera federal, é regido pelo Decreto nº 70.235/1972, que teve prazos alterados pela Lei Complementar nº 227/2026. Desde a Lei Complementar nº 236/2026, há também normas gerais nacionais que valem para União, estados, Distrito Federal e municípios.

Em resumo: o processo começa com a fiscalização, segue com o auto de infração e, se o contribuinte o contestar, passa à fase litigiosa. Na esfera federal, a impugnação deve ser apresentada em 20 dias úteis e julgada pela Delegacia de Julgamento; da decisão cabe recurso voluntário, também em 20 dias úteis, ao CARF, e, havendo divergência, recurso especial à Câmara Superior, em 15 dias. A impugnação suspende a cobrança sem exigir garantia, mas os juros continuam a correr, salvo depósito integral. Litígios de até 60 salários mínimos (R$ 97.260,00 em 2026) terminam na própria Delegacia de Julgamento. A LC 236/2026 criou um piso nacional de garantias para todos os entes.

O ano de 2026 alterou o processo em duas frentes. Em janeiro, a LC 227 mudou os prazos do processo federal. Em setembro, a LC 236 incluiu no Código Tributário Nacional, pela primeira vez, normas gerais de processo administrativo fiscal — com prazo de dois anos para que cada ente adapte sua legislação. Este guia reúne as duas camadas.

O que é o processo administrativo fiscal?

É o conjunto de atos que vai do início da fiscalização até a decisão definitiva sobre a exigência tributária na via administrativa. O art. 1º do Decreto nº 70.235/1972 o define como o processo de determinação e exigência dos créditos tributários da União, abrangendo também o processo de consulta, tema do artigo sobre a solução de consulta. O mesmo rito vale para a manifestação de inconformidade contra a não homologação de compensação (art. 74, § 11, da Lei nº 9.430/1996), um dos caminhos para aproveitar tributo pago indevidamente, tema do texto sobre repetição de indébito tributário.

O processo tem duas fases. A fase de procedimento, ou não contenciosa, reúne a fiscalização e a formalização da exigência, pelo auto de infração ou pela notificação de lançamento. A fase litigiosa, ou contenciosa, começa com a impugnação: nos termos do art. 14 do Decreto, é a impugnação que instaura a fase litigiosa do procedimento. Sem impugnação, não se instaura o litígio: seguem-se a revelia e a cobrança.

Cada ente tem sua própria lei. Tributos federais seguem o Decreto nº 70.235, que tem status de lei ordinária; o ICMS segue a lei de processo de cada estado; o ISS, a de cada município. A LC 236 não substitui essas leis, mas incluiu no Código Tributário Nacional um conteúdo mínimo que todas devem observar (arts. 208-A a 208-J), examinado adiante.

Quais são as etapas do processo administrativo fiscal?

1. Início da fiscalização

O procedimento fiscal começa com o primeiro ato escrito de ofício cientificado ao contribuinte, com a apreensão de mercadorias, documentos ou livros, ou com o início do despacho aduaneiro (art. 7º). O efeito imediato é a perda da espontaneidade: a partir daí, o contribuinte não pode mais se valer da denúncia espontânea quanto aos atos anteriores. Desde a LC 227, esses atos valem por 90 dias, e não mais 60, prorrogáveis por igual período com qualquer ato escrito que indique a continuidade dos trabalhos (art. 7º, § 2º); sem prorrogação, a espontaneidade é recuperada. Como norma geral, a LC 236 passou a exigir que a fiscalização seja precedida de documento que identifique, entre outros elementos, o objeto, o período fiscalizado e o prazo dos trabalhos (art. 196, § 2º, do CTN).

2. Auto de infração ou notificação de lançamento

A exigência é formalizada em auto de infração ou notificação de lançamento, distintos para cada tributo ou penalidade e instruídos com as provas indispensáveis (art. 9º). O auto deve conter, entre outros elementos, a qualificação do autuado, a descrição do fato, a disposição legal infringida e a intimação para pagar ou impugnar em 20 dias úteis (art. 10). A LC 236 acrescentou, como norma geral, a exigência de que o auto demonstre a subsunção dos fatos ao dispositivo legal infringido (art. 208-B do CTN). Como consultar o auto e o que fazer logo após a autuação são temas do texto sobre o auto de infração da Receita Federal.

3. Impugnação

Intimado, o contribuinte pode pagar, parcelar ou impugnar. A impugnação deve ser apresentada por escrito, com os documentos que a fundamentam, em 20 dias úteis contados da intimação (art. 15). Ela instaura a fase litigiosa e suspende a exigibilidade do crédito. Se o contribuinte não paga nem impugna, a autoridade declara a revelia e, após 30 dias de cobrança amigável, encaminha o crédito para cobrança executiva (art. 21).

4. Julgamento em primeira instância

No âmbito da União, a impugnação é julgada pelas Delegacias da Receita Federal de Julgamento, órgãos colegiados internos da Receita (art. 25, I). A decisão deve examinar todas as razões de defesa. Quando exonera o contribuinte acima do valor fixado pelo Ministro da Fazenda, a própria autoridade recorre de ofício ao CARF (art. 34, I).

5. Recurso voluntário ao CARF

Da decisão de primeira instância cabe recurso voluntário, total ou parcial, com efeito suspensivo, em 20 dias úteis contados da ciência (art. 33). O recurso é julgado pelo Conselho Administrativo de Recursos Fiscais, órgão paritário do Ministério da Fazenda.

6. Recurso especial à Câmara Superior

Do acórdão do CARF que der à lei tributária interpretação divergente da de outro colegiado cabe recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais, em 15 dias da ciência (art. 37, § 2º). No contencioso da CBS, o recurso especial se restringe à legislação da contribuição e tem prazo de 10 dias úteis.

7. Decisão definitiva

A decisão torna-se definitiva quando não cabe mais recurso ou quando o prazo se esgota sem interposição (art. 42). Se favorável ao contribuinte, a autoridade deve exonerá-lo dos gravames do litígio, e a decisão não pode ser revista por recurso hierárquico (art. 208-C, § 2º, do CTN); se contrária, deve ser cumprida no prazo de cobrança amigável, após o qual o crédito, não pago, segue para inscrição em dívida ativa e cobrança executiva (arts. 21, § 3º, e 43).

Processo administrativo fiscal: etapas, prazos e as novas regras
Etapas e prazos do processo administrativo fiscal federal, conforme o Decreto nº 70.235/1972 com as alterações da LC 227/2026.

Quem julga o processo administrativo fiscal?

Instâncias do processo administrativo fiscal federal
Instância Órgão e composição Acesso e prazo
Primeira Delegacia da Receita Federal de Julgamento (DRJ): turmas de auditores-fiscais da Receita Federal Impugnação, em 20 dias úteis (art. 15)
Segunda CARF: turmas paritárias, com conselheiros da Fazenda Nacional e dos contribuintes Recurso voluntário, em 20 dias úteis (art. 33), ou recurso de ofício (art. 34)
Especial Câmara Superior de Recursos Fiscais (CSRF), integrada por conselheiros do CARF Recurso especial por divergência, em 15 dias (art. 37, § 2º)
Pequeno valor Órgão colegiado da própria DRJ, em última instância Litígios de até 60 salários mínimos, sem acesso ao CARF

Quais são os prazos do processo administrativo fiscal?

A tabela reúne os prazos do processo federal, após a LC 227/2026, e as normas gerais da LC 236/2026.

Prazos do processo administrativo fiscal
Ato Processo federal (Decreto nº 70.235/1972) Normas gerais (CTN, art. 208-D)
Impugnação 20 dias úteis (art. 15) 20 dias úteis
Recurso voluntário 20 dias úteis (art. 33) 20 dias úteis
Recurso especial 15 dias (art. 37, § 2º); 10 dias úteis no contencioso da CBS 20 dias úteis
Embargos de declaração Conforme regimento do órgão 5 dias úteis
Manifestação de inconformidade contra compensação não homologada 30 dias (art. 74, §§ 7º e 9º, da Lei nº 9.430/1996) —
Ato sem prazo previsto 10 dias úteis (art. 5º-B) —
Validade do ato de início da fiscalização 90 dias, prorrogáveis (art. 7º, § 2º) —
Suspensão dos prazos 20 de dezembro a 20 de janeiro (art. 5º-A) 20 de dezembro a 20 de janeiro
Divulgação de pautas — Antecedência mínima de 10 dias

Na contagem, o Decreto exclui o dia do início e inclui o do vencimento, e os prazos só começam ou terminam em dia de expediente normal (art. 5º). A regra geral federal é a de dias corridos, salvo disposição em contrário — e a impugnação e o recurso voluntário são exatamente os casos em que a lei manda contar em dias úteis. Segundo a orientação da Receita Federal sobre os prazos processuais, seguem em 30 dias corridos a manifestação de inconformidade e o prazo para pagar com redução da multa de ofício (art. 6º da Lei nº 8.218/1991), tema do texto sobre multas tributárias.

Quando a intimação se considera feita

O prazo corre da intimação, cuja data depende do meio utilizado (art. 23, § 2º): na pessoal, vale a da ciência; na postal, a do recebimento ou, se omitida, 15 dias após a expedição; na eletrônica, 15 dias após a data registrada no comprovante de entrega no domicílio tributário, ou a da consulta, se anterior; no edital, 15 dias após a publicação. Abrir a mensagem na caixa postal eletrônica antecipa o início do prazo, e deixar de abri-la não impede que ele comece.

Como as regras federais e as normas gerais convivem

As duas camadas coincidem na impugnação e no recurso voluntário, mas não no recurso especial: o Decreto federal manteve 15 dias, enquanto a norma geral do CTN fixa 20 dias úteis. A LC 236 deu à União, aos estados, ao Distrito Federal e aos municípios dois anos para adaptar sua legislação às normas gerais; não o fazendo, passam a se aplicar diretamente as regras do CTN até que sobrevenha a lei específica (art. 211-B).

Durante esse período de adaptação, o quadro exige cautela. A leitura prudente é observar o prazo mais curto sempre que houver dúvida sobre a regra aplicável. A perda de um prazo recursal torna a decisão definitiva, e ter razão, depois, sobre qual norma deveria prevalecer não devolve a oportunidade perdida.

Como apresentar a defesa administrativa?

A impugnação é a peça mais importante do processo, porque define o que será discutido e quais provas serão examinadas. O art. 16 do Decreto exige que ela indique a autoridade julgadora, a qualificação do impugnante, os motivos de fato e de direito, os pontos de discordância, as provas, as diligências ou perícias pretendidas — com os quesitos — e se a matéria foi levada ao Judiciário. A construção das teses e a organização das provas estão desenvolvidas no texto sobre defesa administrativa fiscal.

A prova documental acompanha a impugnação

A prova documental deve ser apresentada com a impugnação, sob pena de preclusão, salvo em três hipóteses: impossibilidade de apresentação oportuna por força maior, fato ou direito superveniente, ou necessidade de contrapor fatos e razões trazidos depois aos autos (art. 16, § 4º). A LC 236 levou a mesma regra para as normas gerais do CTN (art. 208-D, §§ 7º a 9º). O resultado da defesa, assim, costuma depender da qualidade da documentação reunida nos 20 dias úteis.

O que não for contestado não será discutido

Considera-se não impugnada a matéria que não tenha sido expressamente contestada (art. 17). No caso de impugnação parcial, a parte não contestada é separada, em autos apartados, e cobrada imediatamente (art. 21, § 1º).

Não é preciso oferecer garantia

A defesa administrativa não depende de depósito, arrolamento de bens ou qualquer garantia. A Súmula Vinculante 21 do Supremo Tribunal Federal declarou inconstitucional essa exigência, no mesmo sentido da Súmula 373 do STJ, e a LC 236 a vedou expressamente no novo § 2º do art. 151 do CTN. A impugnação tempestiva suspende a exigibilidade do crédito de imediato — tema desenvolvido em nosso texto sobre suspensão da exigibilidade do crédito tributário.

A escolha entre a via administrativa e a judicial

Levar ao Judiciário a mesma matéria discutida no processo administrativo importa renúncia ao direito de recorrer na esfera administrativa e desistência do recurso já interposto (art. 38, parágrafo único, da Lei nº 6.830/1980; art. 208-E, parágrafo único, do CTN, na redação da LC 236). O CARF já adotava esse entendimento na Súmula nº 1, que admite apenas o julgamento administrativo de matéria distinta da judicial. A estratégia, portanto, precisa ser definida no início: as duas vias não se somam sobre a mesma questão.

O que mudou em 2026?

LC 227/2026: os prazos do processo federal

A LC 227, publicada em 14 de janeiro de 2026, alterou o Decreto nº 70.235 em quatro pontos. A impugnação e o recurso voluntário passaram de 30 dias corridos para 20 dias úteis; o ato de início da fiscalização passou a valer por 90 dias; e foi criado um prazo supletivo de 10 dias úteis. A lei instituiu ainda a suspensão dos prazos entre 20 de dezembro e 20 de janeiro, período em que o CARF não realiza sessões de julgamento e em que o contribuinte pode pedir a retirada de pauta. Para as intimações feitas até 31 de março de 2026, o Ato Declaratório Interpretativo RFB nº 2/2026 mandou adotar o prazo que terminasse por último entre 20 dias úteis e 30 dias corridos. A mesma lei complementar disciplinou o processo administrativo do IBS, no âmbito do Comitê Gestor.

LC 236/2026: normas gerais para todos os entes

A LC 236, de 4 de setembro de 2026, em vigor desde a publicação, incluiu no CTN um capítulo inteiro sobre processo administrativo fiscal, com regras que passam a valer como piso nacional:

  • Duplo grau obrigatório nos entes com mais de 100 mil habitantes, segundo o último censo do IBGE (art. 208-A).
  • Requisitos do auto de infração, incluindo a subsunção dos fatos à norma (art. 208-B).
  • Suspensão imediata da exigibilidade pela impugnação tempestiva e vedação de recurso hierárquico contra decisão definitiva favorável ao contribuinte (art. 208-C).
  • Prazos uniformes, contados em dias úteis, pautas divulgadas com 10 dias de antecedência, suspensão de fim de ano e preclusão da prova documental (art. 208-D).
  • Dever de informar se a matéria foi levada ao Judiciário (art. 208-E).
  • Decisões fundamentadas e públicas (art. 208-F).
  • Vinculação a precedentes do STF e do STJ, resoluções do Senado e súmulas administrativas, com proibição de autuar ou inscrever em dívida ativa créditos fundados em matéria decidida a favor do contribuinte (art. 208-G).
  • Regime de nulidades, com a nulidade dos atos de autoridade incompetente e dos lançamentos sem fundamentação legal (art. 208-H).
  • Rito diferenciado conforme o valor do crédito, o indébito pleiteado ou o porte da empresa (art. 208-I).
  • Sobrestamento automático dos processos administrativos quando o STF ou o STJ suspenderem os judiciais sobre a mesma questão, com possibilidade de separar em autos apartados as questões independentes (art. 208-J).

Para o contribuinte autuado por estados e municípios, a mudança é especialmente relevante: garantias que até aqui dependiam da lei de cada ente passam a ter base no próprio CTN.

Como funciona o CARF?

O Conselho Administrativo de Recursos Fiscais é constituído por seções especializadas por matéria, divididas em câmaras e turmas, e pela Câmara Superior de Recursos Fiscais (art. 25, §§ 1º a 4º). A composição é paritária, com conselheiros representantes da Fazenda Nacional e dos contribuintes. As turmas são presididas por conselheiros da Fazenda, que têm o voto de qualidade em caso de empate (art. 25, § 9º).

A Lei nº 14.689/2023 atenuou os efeitos desse voto. Quando o processo é decidido a favor da Fazenda pelo voto de qualidade, ficam excluídas as multas e cancelada a representação fiscal para fins penais (art. 25, § 9º-A); e, se o contribuinte manifestar a intenção de pagar em 90 dias, são excluídos os juros de mora, com possibilidade de pagamento em até 12 parcelas e uso de prejuízo fiscal e base negativa de CSLL (art. 25-A). A mesma lei assegurou sustentação oral e determinou que os órgãos julgadores observem as súmulas do CARF.

As súmulas a que o Ministro da Fazenda atribui efeito vinculante obrigam toda a administração tributária federal, inclusive a fiscalização. A Portaria MF nº 1.785/2026, publicada em 22 de junho de 2026, estendeu esse efeito a 51 súmulas (n. 188 a 238), sobre temas como créditos de PIS e Cofins, CSLL, compensação e contribuições previdenciárias; o alcance desses enunciados está no artigo sobre as súmulas do CARF.

Há um limite relevante: os órgãos de julgamento não podem afastar lei ou decreto por inconstitucionalidade, salvo exceções previstas em lei, como a da norma já declarada inconstitucional pelo Plenário do STF em decisão definitiva (art. 26-A, § 6º, I), e a Súmula CARF nº 2 afirma que o Conselho não é competente para se pronunciar sobre a inconstitucionalidade de lei tributária. Essas teses devem ser reservadas ao Judiciário. A estratégia perante o Conselho é detalhada em nosso guia sobre o CARF.

Quando o auto de infração é nulo?

No processo federal, são nulos os atos lavrados por pessoa incompetente e os despachos e decisões proferidos por autoridade incompetente ou com preterição do direito de defesa (art. 59). Outras irregularidades não geram nulidade e devem ser sanadas quando causarem prejuízo ao contribuinte, salvo se ele lhes tiver dado causa ou se não influírem na solução do litígio (art. 60). A LC 236 acrescentou, como norma geral, a nulidade dos lançamentos sem fundamentação legal (art. 208-H, § 1º, III); outras duas hipóteses aprovadas pelo Congresso foram vetadas.

Duas regras orientam a alegação. A nulidade de um ato só atinge os que dele dependam. E, quando puder decidir o mérito a favor de quem se beneficiaria da nulidade, o julgador não a pronunciará: decide o mérito (art. 59, § 3º). A defesa eficiente, portanto, combina a alegação de vícios formais com o ataque ao mérito da exigência. O lançamento anulado por vício formal pode ser refeito no prazo de cinco anos contado da decisão definitiva que o anulou (art. 173, II, do CTN).

Quais são os efeitos do processo sobre a dívida?

A cobrança fica suspensa, mas os juros continuam

A impugnação e os recursos suspendem a exigibilidade (art. 151, III, do CTN): enquanto durar o processo, o débito não pode ser inscrito em dívida ativa nem executado, e o contribuinte pode obter certidão positiva com efeitos de negativa (art. 206 do CTN). Os juros de mora, porém, continuam correndo: pela Súmula CARF nº 5, são devidos juros sobre o crédito não pago no vencimento ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo quando houver depósito do montante integral, e a Selic incide também sobre a multa de ofício (Súmula CARF nº 108). Se a Selic acumulada durante a discussão chegar a 40%, um tributo de R$ 1.000.000,00 passará a R$ 1.400.000,00, além da multa. Quem discute um débito relevante deve avaliar o depósito como forma de estancar o custo financeiro da discussão.

Decadência e prescrição

O Fisco tem cinco anos para lançar. Nos tributos sujeitos a lançamento por homologação em que houve pagamento, ainda que parcial, o prazo conta-se do fato gerador (art. 150, §§ 4º e 6º, do CTN); sem pagamento, ou havendo dolo, fraude ou simulação, conta-se do primeiro dia do exercício seguinte àquele em que o lançamento poderia ter sido feito (arts. 150, § 5º, e 173, I). Enquanto pende o processo administrativo, o crédito não está definitivamente constituído, e o prazo de cinco anos para a cobrança judicial só começa a correr com a decisão definitiva (art. 174). Pela Súmula 622 do STJ, a notificação do auto de infração encerra a contagem da decadência, e a prescrição só começa quando se esgotam a instância administrativa e o prazo para pagamento voluntário. No processo administrativo fiscal não há prescrição intercorrente (Súmula CARF nº 11). A demora, porém, tem limite: a administração deve decidir em até 360 dias contados do protocolo (art. 24 da Lei nº 11.457/2007), prazo que o STJ, em recurso repetitivo, aplicou aos processos administrativos fiscais federais e que pode ser exigido por mandado de segurança. Os termos desses prazos estão detalhados em nosso texto sobre extinção do crédito tributário, e a exceção reconhecida pelo STJ para penalidades aduaneiras, em nosso texto sobre prescrição intercorrente em penalidades aduaneiras.

O rito de pequeno valor e o devedor contumaz

No âmbito federal, os litígios cujo lançamento ou controvérsia não supere 60 salários mínimos — R$ 97.260,00 em 2026 — seguem o rito do contencioso de pequeno valor (art. 23 da Lei nº 13.988/2020), julgados em última instância por órgão colegiado da própria Delegacia de Julgamento, sem acesso ao CARF. A LC 225/2026 sujeitou a esse rito também o devedor contumaz, independentemente do valor discutido — uma das consequências mais sensíveis da qualificação.

Reflexos penais

O crime material contra a ordem tributária não se tipifica antes do lançamento definitivo do tributo (Súmula Vinculante 24 do STF), e a representação fiscal para fins penais só é encaminhada ao Ministério Público após a decisão final na esfera administrativa (art. 83 da Lei nº 9.430/1996), sendo cancelada se a exigência for mantida pelo voto de qualidade.

E nos estados e municípios?

Autos de infração de ICMS, IPVA e ITCMD seguem a lei de processo de cada estado, e os de ISS e IPTU, a de cada município, com prazos, órgãos julgadores e instâncias próprios. Em São Paulo, vale a Lei estadual nº 13.457/2009, com segunda instância no Tribunal de Impostos e Taxas (TIT); no Rio Grande do Sul, a Lei estadual nº 6.537/1973, com recurso ao Tribunal Administrativo de Recursos Fiscais (TARF). O que muda com a LC 236 é a existência de um mínimo comum: nos entes com mais de 100 mil habitantes, o duplo grau passa a ser obrigatório, e as regras sobre auto de infração, provas, precedentes e nulidades valem para todos. Se a legislação local não for adaptada em dois anos, as normas do CTN passam a se aplicar diretamente (art. 211-B).

Quando a discussão administrativa se encerra de forma desfavorável e o crédito chega à execução fiscal, a defesa continua no Judiciário, como examinado em nosso texto sobre defesa em execuções fiscais.

Perguntas frequentes sobre o processo administrativo fiscal

Qual é o prazo para impugnar um auto de infração federal?

Vinte dias úteis, contados da intimação, conforme o art. 15 do Decreto nº 70.235/1972, na redação da LC 227/2026. Antes, o prazo era de 30 dias corridos. A intimação eletrônica considera-se feita 15 dias após a entrega no domicílio tributário eletrônico ou na data da consulta, se anterior. Estados e municípios têm prazos próprios, mas a LC 236/2026 fixou 20 dias úteis como norma geral.

A impugnação suspende a cobrança do tributo?

Sim. A impugnação e os recursos administrativos suspendem a exigibilidade do crédito tributário, nos termos do art. 151, III, do CTN, e o contribuinte pode obter certidão positiva com efeitos de negativa. A LC 236/2026 deixou expresso que a suspensão pela impugnação tempestiva é imediata.

É preciso depositar ou dar garantia para recorrer?

Não. A Súmula Vinculante 21 do STF declarou inconstitucional a exigência de depósito ou arrolamento prévio para recurso administrativo, e a LC 236/2026 vedou expressamente a exigência de caução ou garantia para impugnações e recursos.

Os juros continuam correndo durante o processo administrativo?

Sim. Pela Súmula CARF nº 5, são devidos juros de mora sobre o crédito não pago no vencimento ainda que suspensa sua exigibilidade, salvo se houver depósito do montante integral.

O que é recurso voluntário?

É o recurso do contribuinte contra a decisão de primeira instância desfavorável, dirigido ao CARF na esfera federal. Deve ser interposto em 20 dias úteis contados da ciência da decisão e tem efeito suspensivo.

Quantas instâncias tem o processo administrativo fiscal federal?

Duas instâncias ordinárias — a Delegacia de Julgamento e o CARF — e, havendo divergência de interpretação entre colegiados, o recurso especial à Câmara Superior de Recursos Fiscais, em 15 dias. O contencioso de pequeno valor, de até 60 salários mínimos (R$ 97.260,00 em 2026), segue rito próprio e é julgado em última instância pela própria Delegacia de Julgamento.

O que acontece quando o CARF decide pelo voto de qualidade?

Se o empate for resolvido a favor da Fazenda, ficam excluídas as multas e cancelada a representação fiscal para fins penais (art. 25, § 9º-A, do Decreto nº 70.235/1972). Se o contribuinte manifestar a intenção de pagar em 90 dias, são excluídos também os juros de mora, com pagamento em até 12 parcelas (art. 25-A).

Posso discutir o mesmo tema na Justiça e na esfera administrativa?

Não ao mesmo tempo. Levar ao Judiciário a mesma matéria do processo administrativo importa renúncia ao direito de recorrer administrativamente e desistência do recurso interposto, conforme o art. 208-E do CTN e a Súmula CARF nº 1. Encerrado o processo administrativo, o contribuinte pode discutir a exigência em juízo.

O que a LC 236/2026 muda para autuações de estados e municípios?

Cria um piso nacional: duplo grau obrigatório nos entes com mais de 100 mil habitantes, requisitos mínimos do auto de infração, prazos de 20 dias úteis, vinculação a precedentes do STF e do STJ e regras de nulidade. Os entes têm dois anos para se adaptar; sem adaptação, aplicam-se diretamente as normas do CTN.

Conclusão

O processo administrativo fiscal costuma ser a via mais econômica para contestar uma exigência tributária: não exige garantia, suspende a cobrança e é julgado por órgãos especializados. As mudanças de 2026, porém, encurtaram prazos na esfera federal e criaram um conjunto de normas gerais que, em dois anos, alcançará todos os entes — com um período de transição em que as regras federais e as nacionais ainda não coincidem por inteiro.

O resultado de uma defesa administrativa costuma ser definido nos primeiros dias. Os 20 dias úteis da impugnação concentram a escolha das teses, a reunião das provas, a decisão entre a via administrativa e a judicial e a avaliação do depósito para conter os juros — decisões que, mais adiante, dificilmente podem ser refeitas.

Principais pontos deste artigo:

  • Impugnação e recurso voluntário: 20 dias úteis; recurso especial à Câmara Superior: 15 dias.
  • A impugnação suspende a exigibilidade sem garantia, mas os juros correm, salvo depósito integral.
  • Litígios de até 60 salários mínimos e os do devedor contumaz terminam na Delegacia de Julgamento.
  • No empate decidido pelo voto de qualidade, caem as multas e, com pagamento em 90 dias, os juros.
  • A ação judicial sobre a mesma matéria importa renúncia à via administrativa.
  • A LC 236/2026 criou normas gerais para todos os entes, com dois anos para adaptação.

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Maurício Lindenmeyer Barbieri é sócio-gerente da Barbieri Advogados. Mestre em Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Inscrito na Ordem dos Advogados da Alemanha (RAK Stuttgart n.º 50.159), de Portugal (Lisboa n.º 64.443L) e do Brasil (OAB/RS n.º 36.798 · OAB/DF · OAB/SC · OAB/PR · OAB/SP). Contador — CRC-RS n.º 106.371/O. Membro da Associação de Juristas Brasil-Alemanha (DBJV). Professor universitário.

Este artigo tem caráter exclusivamente informativo e reflete a legislação e a jurisprudência vigentes em outubro de 2026. Não constitui aconselhamento jurídico nem substitui a análise individualizada de cada caso. Para assessoria especializada, entre em contato com a Barbieri Advogados.

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